A paulista Barueri, a número 1 do Brasil
Estado de São Paulo segue no topo
Lino Rodrigues
Paulo Justus
SÃO PAULO e BARUERI. Os pouco mais de 240 mil habitantes da pequena Barueri vivem em umaespécie de oásis em termos de infraestrutura e prestação de serviços públicos na Região Metropolitana de São Paulo. As boas condições de saúde, educação, emprego e renda têm garantido ao município um histórico de alto desenvolvimento desde a primeira edição do Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal (IFDM). Nos últimos anos, a cidade ficou entre os dez melhores resultados do país, culminando com a primeira colocação no IFDM de 2009, com nota0,9384.
Com um Produto Interno Bruto (PIB) de R$26,996 bilhões, o sexto entre os municípios paulistas, Barueri tem feito o seu dever de casa: concentra boa parte de seus investimentos em saúde, educação e segurança. A cidade, que fica a menos de 30 quilômetros da capital paulista e abrigao complexo Alphaville, é sede de instituições financeiras e da maioria das grandes redes varejistas, que a escolheram para abrigar seus centros de distribuição. Hoje, recebe pelo menos 200 novos pedidos de inscrição municipal por mês.
A redução de impostos e taxas municipais, basicamente Imposto sobre Serviços (ISS) e IPTU, tem feito a diferença na hora de empresas escolherem o local para realizar investimentos e, consequentemente, aumentar o número de vagas de trabalho. Segundo a Prefeitura, existem hoje na cidade cerca de 240 mil postos de trabalho para uma população economicamente ativade 120 mil pessoas.
- Boa parte da nossa mão de obra vem de fora da cidade. Temos ainda cerca de 30 mil trabalhadores que saem de Barueri para trabalhar na capital, ou nas outras cidades da região – diz o secretário de Indústria e Comércio da cidade, Luiz Carlos de Souza.
Os investimentos na área de saúde, que privilegia a implantação das Unidades Básicas de Saúdenos bairros (já são 16 UBSs), chegam a 20% do orçamento da cidade. Outros 29,3% sãodestinados à educação. Para 2012, esse percentual passará para 31% do R$1,7 bilhão previsto pelo governo municipal e aprovado pela Câmara de vereadores da cidade.
A força econômica de São Paulo, somada aos investimentos dos municípios paulistas em saúde e educação, colocam o estado no topo do IFDM. Apesar de ter se mantido à frente, São Paulo não saiu ileso da crise econômica internacional. Sofreu uma redução no número de municípios comdesenvolvimento alto: de 164 em 2008 para 139 em 2009.
O pesquisador do Núcleo de Estudos Populacionais da Unicamp, Alberto Jakob, diz que a crise econômica afetou principalmente a indústria e o agronegócio no estado.
- Começamos a perceber que os imigrantes no estado estão começando a voltar a seus estadosde origem, por causa da redução de oportunidades de emprego.
06/11/2011
Lula, o câncer, o SUS e o Sírio
Elio Gaspari, O Globo
As pessoas que estão reclamando porque Lula não foi tratar seu câncer no SUS dividem-se em dois grupos: um foi atrás da piada fácil, e ruim; o outro, movido a ódio, quer que ele se ferre.
Na rede pública de saúde, em 1971, Lula perdeu a primeira mulher e um filho. Em 1998, o metalúrgico tornou-se candidato à Presidência da República e pegou pesado: “Eu não sei se o Fernando Henrique ou algum governador confiaria na saúde pública para se tratar.”.
Nessa época acusava o governo de desossar o SUS, estimulando a migração para os planos privados. Quando Lula chegou ao Planalto, havia 31,2 milhões de brasileiros no mercado de planos particulares. Ao deixá-lo, essa clientela era de 45,6 milhões, e ele não tocava mais no assunto.
Em 2010, Lula inaugurou uma Unidade de Pronto Atendimento do SUS no Recife dizendo que “ela está tão bem localizada, tão bem estruturada, que dá até vontade de ficar doente para ser atendido”. Horas depois, teve uma crise de hipertensão e internou-se num hospital privado.
Lula percorreu todo o arco da malversação do debate da saúde pública. Foi de vítima a denunciante, passou da denúncia à marquetagem oficialista e acabou aninhado no Sírio-Libanês, um dos melhores e mais caros hospitais do país. Melhor para ele.
(No andar do SUS, uma pessoa que teve dor de ouvido e sentiu algo esquisito na garganta leva uns trinta dias para ser examinada corretamente, outros 76, na média, para começar um tratamento quimioterápico, 113 dias se precisar de radioterapia. No andar de Lula, é possível chegar-se ao diagnóstico numa sexta-feira e à químio na segunda. A conta fica em algo como R$ 50 mil.)
Lula, Dilma Rousseff e José Alencar trataram seus tumores no Sírio. Lá, Dilma recebeu uma droga que não era oferecida à patuleia do SUS. Deve-se a ela a inclusão do rituximab na lista de medicamentos da saúde pública.
Os companheiros descobriram as virtudes da medicina privada, mas, em nove anos de poder, pouco fizeram pelos pacientes da rede pública. Melhoraram o acesso aos diagnósticos, mas os tratamentos continuam arruinados. Fora isso, alteraram o nome do Instituto Nacional do Câncer, acrescentando-lhe uma homenagem a José Alencar, que lá nunca pôs os pés.
Depois de oito anos: um em cada cinco pacientes de câncer dos planos de saúde era mandado para a rede pública. Já o tucanato, tendo criado em São Paulo um centro de excelência, o Instituto do Câncer Octavio Frias de Oliveira, por pouco não entregou 25% dos seus leitos à privataria. (A iniciativa, do governador Geraldo Alckmin, foi derrubada pelo Judiciário paulista.)
A luta de José Alencar contra “o insidioso mal” serviu para retirar o estigma da doença. Se o câncer de Lula servir para responsabilizar burocratas que compram mamógrafos e não os desencaixotam (as comissões vêm por fora) e médicos que não comparecem ao local de trabalho, as filas do SUS poderão diminuir.
Poderá servir também para acabar com a política de duplas portas, pelas quais os clientes de planos privados têm atendimento expedito nos hospitais públicos.
Lula soube cuidar de si. Delirou ao tratar da saúde dos outros quando, em 2006, disse que “o Brasil não está longe de atingir a perfeição no tratamento de saúde”. Está precisamente a 33 quilômetros, a distância entre seu apartamento de São Bernardo e o Sírio.
02/11/2011
De Steve.Jobs@com para Dilma@gov
Elio Gaspari, O Globo
Senhora presidente,
Eu pensei em escrever para a senhora em duas ocasiões. Na primeira, quando a sua burocracia tributária disse que o iPad não era um computador, porque não tinha teclado. Nunca ouvi tamanha besteira. Na segunda, quando soube que a senhora usava um iPad (achou o teclado?).
Desisti porque algum Bozo diria que estava defendendo meus interesses. Resolvi fazê-lo agora porque vim para cá e acaba de ser publicada por aí a minha biografia, escrita pelo Walter Isaacson. Eu acho que ele foi bonzinho. Diz 34 vezes que eu tenho um “campo de distorção da realidade”. Maneira elegante para mostrar que fui um refinado mentiroso.
A senhora já se deu conta de que, no Brasil, eu e os meus produtos somos tratados como estorvos? Por causa dos impostos os iPods, os iPhones e os iPads vendidos na sua terra são os mais caros do mundo.
Quem traz um MacAir na volta de uma viagem paga R$ 650 de impostos. Se trouxer máquina fotográfica, paga nada. Mais: pode comprar, no desembarque, US$ 500 de bebidas alcoólicas. Vocês importam mais lixo e roupas usadas do que computadores Apple.
Agora mesmo, a Foxconn negocia com seu governo a montagem de iPads no Brasil. Não acompanho essa conversa, mas o Alan Turing (aquele gênio gay que se matou comendo uma maçã com cianeto) me contou uma história de “transferência de tecnologia” e percentagem de componentes nacionais.
Isso é bullshit. Transferimos o que nos convém transferir, desde que a produção brasileira tenha preços competitivos. Fora disso, nem pensar.
A senhora tem no Brasil uma artilharia de interesses que atrasaram o progresso do país em vinte anos na área dos computadores (hoje o atraso está nuns dez). Lembra da “reserva de mercado”? Até meados dos anos 80, seria mais fácil para mim entrar no Brasil com um pacote de pastilhas de LSD do que com um Mac.
Enquanto isso, alguns bobalhões montaram em São Paulo um galpão para clonar minhas máquinas. Garantiram-me que a senhora defendia essa maluquice. Não acredito.
Eu soube que há prefeituras comprando lotes de iPads. Falam até num projeto de um tablet (seja lá de quem for) para cada um dos 7 milhões de estudantes brasileiros. Não permita isso, dona Dilma, eles não querem melhorar a educação, querem rapinar os contribuintes. Seu programa de Um Computador por Aluno é um engano administrativo a serviço da marquetagem política e do bem-estar dos fornecedores.
Outro dia pararam de pagar a capacitação de professores, mas continuaram a pagar as máquinas. Seu governo quer levar computadores para as escolas? Treine os mestres, dê um bônus a cada família e ela compra a máquina que quiser.
A senhora já notou como o mercado de e-books brasileiros está atrasado? Pois pense no tamanho do negócio dos livros didáticos. Seu programa de distribuição gratuita desses livros é o maior do mundo, depois do chinês. Imagine esse mercado dentro de dez anos, quando os tablets escolares custarem menos de US$ 50.
Façamos de conta que estamos na Apple. Esse cenário pedirá novos produtos, novas editoras e novos modelos de livros. Eu faria assim: ponha dois sujeitos para pensar só nisso. Um para projetar boas ideias. Outro para enxotar más ideias trazidas por bons amigos.
Atenciosamente
Steve Jobs.
26/10/2011
